Cidades Ubatuba

Zé Pedro, o Mestre Quilombola mais famoso da cidade

Fotos: Raell Nunes/TN

Homem que vai ficar para história de Ubatuba, seu Zé ainda mantém as tradições vivas

 

Por Raell Nunes

“Meu avô foi escravo. Meu avô é que veio de Angola. Meu pai não foi escravo, a escravidão aconteceu alguns anos mais atrás.” É assim que o Mestre Quilombola Zé Pedro, da Casa de Farinha localizada na Picinguaba, começa a contar um pouco de sua história.

Morando há mais de 60 anos no mesmo lugar, seu Zé cultiva e propaga sua cultura aos moradores e turistas do mundo inteiro. Figura tradicional e ao mesmo tempo inédita – por remodelar suas histórias e “causos” – ele continua sendo referência na região.

Na Casa de Farinha – que fica dentro da Fazenda da Caixa –, antigo engenho de álcool e açúcar que foi construído no século retrasado, o Mestre passa seus conhecimentos aos familiares e curiosos. Casou-se aos 18 anos com Maria Nadir, com quem teve 14 filhos, 50 netos, 30 bisnetos e um tataraneto.

“Quando começou era um por ano, desembestou que não parava mais. No começo, a gente queria dois ou três. Depois, veio mais um menino, mais uma menina, aí veio seis meninas e cinco meninos vivos; tem duas meninas mortas e um menino morto”, relata sobre seus parentes.

Aos 13 anos, seu Zé saiu de Cunha (SP), sua cidade natal, para trabalhar em um calçamento nas ruas de Paraty (RJ). Depois que se casou veio morar em Ubatuba com mais 12 famílias para se ocupar na fazendo através do sistema de usufruto. Tomou conta do espaço e luta para manter as tradições vivas nos dias atuais. Atualmente ele tem 79 anos de idade.

Contando um pouco da sua experiência, o homem que não teve uma base escolar, chegou a filosofar. “O pescador e o caçador, eles têm umas histórias que a turma diz que é mentira, mas não é. O pescador artesanal e o caçador conviviam com os bichos, o animal irracional, e o bicho trata de se defender igual a gente. Igual ou até melhor, porque ele vive mesmo dentro da mata.”

O também chamado Quilombo da Fazenda é acessada através da Rodovia Rio-Santos (SP-55), na altura do km 10. Adiante, é preciso seguir alguns minutos por uma estrada de terra. Lá, há cachoeiras, diversas espécies de animais e uma mata encantadora.

“Aqui é mais bonito mesmo. É natureza, é mato, é água. É um povo de outro jeito. No geral, é outro paraíso”, diz Zé Pedro ao seu estilo. O lugar fica dentro do Parque Estadual da Serra do Mar e tem uma curiosa e antiga roda de engenho, movida pela força das águas.

Deixe um Comentário

O Tamoios News isenta-se completamente de qualquer responsabilidade sobre os comentários publicados. Os comentários são de inteira responsabilidade do usuário (leitor) que o publica.