Cultura São Sebastião

Após sete anos, atividades de pesquisa e visitação do Sítio Arqueológico de São Francisco podem ser retomadas

Fotos: Divulgação

Arqueólogos que atuaram durante anos no projeto e deixaram atividades por falta de incentivo, podem retomar trabalhos e trazer novidades sobre o tema

Por Ricardo Hiar, de São Sebastião

O município de São Sebastião possui diversos registros históricos, de grande importância não apenas para a população local, mas  para a preservação da cultura e história brasileira. Entre esses espaços, um se destaca: o Sítio Arqueológico de São Francisco, localizado na Figueira. Descoberto após anos de estudos e pesquisas, o local oferece uma riqueza ímpar e uma série de atrativos para quem deseja visitar e conhecer um pouco das origens dessa localidade.

Sem investimentos, novos estudos e atendimento ao público que deseja visitar o local desde 2010, há uma expectativa de retomada das atividades em breve. Pelo menos essa é a intenção dos arqueólogos Wagner Bornal e Aline Mazza. Segundo eles, o sítio tem uma grande papel na história e arqueologia, motivo pelo qual deve estar à disposição da população, que deve ter o direito de acessar essa diversidade.

Além disso, projetos que foram paralisados viabilizariam até meios que, em pouco tempo, poderiam gerar renda para a manutenção e sustentabilidade do sítio.

A pausa e os avanços

Aline e Bornal contam que a pausa nas atividades ocorreram por questões de ordem política e falta de interesse da gestão municipal. “As prioridades eram outras, então acabou parando com isso, mas em termos”, disse Bornal.

Nesse contexto, ele conta que a equipe não conseguiu ficar totalmente a parte das questões do sítio e, aproveitou o tempo fora para fazer levantamentos documentais. Esses estudos renderam várias novidades relacionadas à história do sítio, que os arqueólogos pretendem divulgar em breve.

Conforme explicaram, já foram iniciadas novas conversas para a retomada do projeto, que prevê implantação de museografia, atividade turística e geração de renda. “Não temo mais que cavar, pois já identificados muita coisa. Tem cultura africana, europeia, aliada com a caiçara. Agora precisamos implementar uma exposição no Batuíra e tratar do acervo”, contou.

De acordo com os estudiosos, mais de mil peças já foram identificadas no sítio e que deveriam ser disponibilizadas para a população, por meio de mostras. Outro aspecto que Bornal destaca é que o espaço Batuíra, que vem sendo utilizado apenas como um local para reuniões, deveria abrir um museu fixo e ser base do projeto mais amplo do sítio. Na época de sua aquisição e recuperação, ps recursos recebidos para o investimento teriam essa finalidade, mas não foram praticados pela gestão passada.

Ele conta que por muito tempo, mesmo com mudanças de administrações do Executivo, havia o apoio para os trabalhos seguirem. Até que ficou inviável a partir de 2010. “Tinha ideias, queria trabalhar, mas não tive apoio”, desabafou.

O Sítio Arqueológico São Francisco compõe-se de elementos arquitetônicos que evidenciam uma unidade produtiva implantada sobre terraços construídos. Apresenta vestígios de edificações, sistema de captação de água, estradas, bolsões de cultura agrícola e áreas de descarte de material.

A história escondida numa lenda

A descoberta do Sítio Arqueológico de São Francisco está ligada diretamente a uma lenda, contada por antigos moradores do bairro, que eram descentes de escravos. Foi a partir do conhecimento dessas informações consideradas crendices populares, que Bornal foi levado no fim da década de 80, a pesquisar sobre o sítio e o que ele representava para a história.

Segundo o arqueólogo, tudo começou com um senhor, chamado Sebastião Fortunado, que contava uma lenda sobre um morro da senzala, que era amaldiçoado e que todos os caiçaras tinham medo. “Nesse local morava um homem chamado Joaquim Pedro, que teria feito um pacto com o diabo. Ele colocou o diabo dentro de uma garrafa, que foi solto por uma mulher. Quando o diabo escapa, ocorre um grande estrondo e Joaquim morre e as paredes se ajoelham”, descreveu Wagner Bornal, sobre a história que ouvira na época.

Conforme explicou, na época estava começando o mestrado e, ao ter uma desilusão por conta de um sítio arqueológico no qual estava estudando e foi destruído para uma empresa, resolveu vir a São Sebastião, passar o tempo e pensar na vida.

Foi quando teve contato com um neto ou bisneto de Fortunado, que o levou até o avô, para conhecer melhor a história. O idoso não apenas fez o relato, como levou o arqueólogo até o local citado pela lenda.

Quando chegou lá, viu apenas um paredão de pedras. Mas como sabia fazer uma leitura estereoscópica, conseguiu ver “cicatrizes” na mata, que mostravam as diferenças entre solo sem construção e aqueles que já sofreram ação do homem. “Comecei a fazer incursões com alguns amigos e vi a proporção. Na ocasião a prefeitura apoiou a atividade e contei com a ajuda de dois funcionários do município, o Vanderlei e o Marino”, disse.

Grande material começou a sair em superfície, mostrando a riqueza da descoberta arqueológica. O que começou com poucos metros, chegou a um milhão de metros quadrados de área pesquisada. “Foi coletado um acervo de mais de mil peças encaixotadas. Começou a revelar seu potencial turístico, cultural e didático. A gente treinou e contratou monitores para dar suporte à trilha. Desenvolvemos vários projetos, assim como trilhas e reflorestamento”, comentou.

Popularizar para preservar

Há oito anos Bornal e Aline dizem ter pensado que deveriam entregar para a população esse patrimônio, por isso começaram a desenvolver trilhas, reflorestamento, além de tornar aquilo um atrativo turístico e gerador de renda, agregado ao bairro São Francisco.

“O que o velho fortunado falava lá atrás, era real. Existiu o Joaquim Pedro, ele era um traficante de escravos. As paredes se ajoelharam porque estourou uma barragem que batem na parede e elas dobraram, que gerou o grande estrondo. Casou com uma menina de 13 anos. Não tinha nada e ficou rico. No dito popular, quando acontece isso, só pode ser o pacto”, descreveu.

A cerâmica localizada no sítio traz informações gigantescas. Os escravos eram obrigados a seguirem as regras ditadas no Brasil. Eles precisavam esconder o corpo por imposição dos senhores, mas demonstraram isso na cerâmica que produziam. Era uma forma de identidade cultural, que gerou a exposição “Marcas D’Água”. Ela passou por vários pontos do Brasil.

Uma comissão chegou a vir da Europa para conhecer o espaço e concedeu ao Sítio um selo de apoio e qualidade. Veio comissão da Europa estudar esse sítio, que chegou a dar um selo de qualidade de sítio. Pela falta de apoio da prefeitura na ocasião, que não ofereceu uma passagem para ir receber o selo, foi suspensa a entrega. O espaço foi considerado Patrimônio Turístico Mundial, o primeiro do Brasil.

Propostas viáveis

Na retomada das atividades do sítio, Wagner Bornal acredita na necessidade de mudanças estruturais na gestão desse patrimônio. Aline afirma que o sítio sempre sobreviveu pela própria comunidade do bairro, como alguns meninos que faziam a manutenção do espaço e das trilhas.

Nessa nova fase, também poderiam ser comercializados produtos da população local.

“Seria possível alguém produzir um broche, uma camiseta, réplicas de panelinhas de cerâmica, enfim, vários itens pra conseguirmos gerar emprego e renda”, completou.

Também seria importante a interligação das áreas 3 e 1 no sítio. Com essa interligação, seria viável o acesso até um ponto mais íngreme do sítio, para poder conhecer e visitar. “Algumas pessoas se interessaram em doar áreas para que isso fosse efetivado e a prefeitura na época não realizou”, completou.

Sobre o Batuíra, a ideia é que ele se torne o que foi proposto na época da sua aquisição, que seria um centro de referência no bairro e também do núcleo de arqueologia. Um projeto de exposição fixa, pretende por exemplo, criar ambientes lúdicos para mostrar a história do sítio São Francisco. Nesse caso, teria uma sala temática como um navio negreiro, outro para a senzala, a casa dos senhores dono de escravos, entre outros.

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