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Saruês são imunes ao veneno de cobras e predadores desses animais

Foto Naiara Tank

Ao ouvir um barulho no quintal de madrugada, o servidor público federal, Flávio Rabbath, que mora no bairro de Barequeçaba, em São Sebastião, levantou-se e viu um saruê. Inicialmente ele o confundiu com um rato. “Me assustei e o coloquei para correr. Após pesquisar eu entendi a importância deles ao meio ambiente e agora fico feliz ao vê-los, aliás quando não os vejo fico preocupado em saber por que não apareceram por aqui”, conta Flávio.

O biólogo Andre Ross, que é responsável técnico na Fundação Animalia, que atende demanda de fauna da Polícia Ambiental, Secretaria Estadual de Meio Ambiente, PESM, Fundação Florestal, IBAMA  e outros órgãos ambientais por meio de compensação ambiental do Consórcio Rodovia dos Tamoios, no litoral norte de São Paulo, explica que as pessoas confundem os saruês (que pertencem ao gênero Didelphis), que são marsupiais (Animal cujos filhotes são criados em uma bolsa do corpo da mãe) com ratos, que são roedores, apenas pela aparência genérica. Segundo o biólogo eles não transmitem as doenças que os ratos-de-esgoto transmitem (Rattus rattus, Rattus norvegicus).

Carla Bantel, bióloga, mais conhecida como Carlota, especialista em marsupiais, atualmente trabalha como técnica no Instituto Argonauta para a Conservação da Fauna Marinha e Costeira, conta que os saruês são animais noturnos, dormem entocados durante o dia e são solitários, a mãe cria os filhotes sozinha, que no início permanecem aderidos às mamas dentro da bolsa (marsupio), e depois, ainda filhotes, se agarram aos pelos nas costas da mamãe e seguem de carona. Já maiorzinhos, vão se desprendendo da mãe e tentando sobreviver em carreira solo. A mamãe saruê tem de 9 a 11 filhotes, mas somente uma média de dois sobrevivem. Nessa época do ano é muito comum observarmos adultos e filhotes, sobretudo órfãos por algum tipo de acidente com a mãe, que são mortas muitas vezes por cachorros ou pessoas que os confundem com ratos.

Os saruês se alimentam principalmente de frutas e pequenos animais. “Uma curiosidade especial é o fato de saruês serem imunes ao veneno de jararaca, e elas e outras cobras também fazem parte de sua dieta. No ambiente urbano, contribuem para controlar a ocorrência de baratas, escorpiões e roedores, que também fazem parte de sua dieta”, explica Carlota.

Foto Carla Brunner

Foto Carla Brunner

A doutora Maria Ermelinda Oliveira, bióloga e professora Titular da Universidade Federal do Amazonas em sua pesquisa com a história natural de serpentes da Amazônia, escreveu que a partir de encontros provocados em cativeiro, os saruês dominaram as cobras mordendo-as na cabeça ou na região do pescoço e iniciaram a ingestão comendo esta parte primeiro. “Além de serem imunes ao veneno de cobras (jararacas, cascavéis e corais) são predadores desses animais e funcionam como reguladores ecológicos, principalmente em áreas florestadas dos centros urbanos. Sem contar que os saruês também têm papel importante no controle de carrapatos (transmissores da febre maculosa), pois estes fazem parte de sua dieta.

Maria Ermelinda lamenta que o fato de os saruês serem vulneráveis a atropelamentos em área urbana e ataques de cães domésticos e de pessoas que se sentem incomodados por sua presença em sua casa ou quintal. Em caso de encontro em domicílio, deve-se notificar aos órgãos responsáveis, como o Centro de Controle de Zoonoses, evitando matar ou retirá-los.

O biólogo Andre, do Animalia, informou que apenas nesses primeiros quinze dias do mês de outubro já recebeu mais de 20 filhotes.

Recentemente a bióloga Naiara Tank, moradora do bairro de Barequeçaba, em São Sebastião, foi procurada por uma moça que encontrou uma saruê fêmea morta no quintal por seu cachorro, mas ficaram os filhotes, que tinham dias de nascidos. “Procuraram a mim e a Carlota, por conta de trabalharmos com reabilitação de animais marinhos no Instituto Argonauta. E eu fiquei com oito filhotes em casa. Com a ajuda da minha prima, os alimentávamos de duas em duas horas e depois que eles ficaram maiorzinhos encaminhamos para o Centro de Triagem de Animais Silvestres (CETAS).

Foto Naiara Tank

Carla Brunner Pavone, que também mora em Barequeçaba, com o marido Bruno, dois cachorros e um gato costumam ver e ouvir os saruês todas as noites. Por serem biólogos sabem da importância ecológica desses animais e por isso não tem medo. “Nossos cachorros, inclusive por instinto, tentam caçar saruês, mas estamos tentando ensiná-los a não fazer isso, repreendemos bastante quando latem pra eles e já salvamos alguns deles por aqui”, revela.

Ela conta que a relação que tem com os saruês é de contemplação e tentativa de proteção. “Convivemos bem com eles!”, brinca.

“Quando sou questionada por vizinhos e moradores aqui do bairro sobre os saruês costumo explicar que eles, entre outros animais selvagens, se acostumaram a viver perto de nós. O crescimento desordenado das construções humanas junto com a degradação que causamos nos seus habitats naturais também não deixaram muita opção para eles. Então eles passam a viver nessa nova condição e se adaptam, buscando comida em restos de alimentos que deixamos mal acondicionados, e buscando abrigos em construções e terrenos mais protegidos de predadores”.

Segundo Carla Brunner, é importante se certificar de não deixar nenhum alimento para eles e nenhum acesso para esconderijos, caso não queiram eles por perto. Que isso é importante, pois eles podem trazer doenças, como qualquer animal selvagem, por isso é bom evitar o contato direto com eles ou que entrem nas casas, mas se aparecer deve-se chamar um profissional capacitado para manejá-lo e retirá-lo do local.

A bióloga Carlota reforça que como qualquer animal silvestre, o saruê não agride gratuitamente e que é muito raro acontecer de uma pessoa ser mordida por um deles, mas se isso acontecer, cuidados básicos devem ser tomados, como boa higienização no local da mordida e a prevenção de tomar uma antirrábica no posto de saúde.