Cidades São Sebastião

Georgeta Gonçalves é a protagonista do curta-metragem ‘A criatura sou eu ontem’, filmado em Boiçucanga

Fotografia: Leliane de Castro

Nesta quinta-feira (27), a produtora iT Filmes lançou na web o curta metragem “A criatura sou eu ontem”, que trata da invisibilidade do idoso, das precoces mortes de crianças no Brasil, atravessado com crônicas, poemas e reflexões da escritora e lixóloga, Georgeta Gonçalves, com trechos de seu livro “Um gato no mercado”. O trabalho é resultado das experimentações da diretora e jornalista Elizabete Martins Campos, em filmar com populares, buscando formas em imagens e sons naquilo que cruza suas pesquisas, tempo e lugar, utilizando um celular, como ferramenta de registros e montagem durante o processo. A diretora e a escritora se conheceram por acaso no Escambau Cultura, quando Georgeta foi assistir ao premiado documentário dirigido por Elizabete, ‘My Name is Now, Elza Soares’. Parte do documentário da Elza Soares foi gravado em Boiçucanga e a diretoria  Elizabete recebeu seu primeiro premio na Academia Brasileira de Cinema no ano passado.

Elizabete era videoreporter na Rede Minas, no Programa Agenda, onde trabalhou por mais de quatro anos.  Em seus primeiros trabalhos executou diferentes funções nos filmes, operando câmeras, fazendo o som, a luz. Em fevereiro deste ano Elizabete iniciou uma série de experimentações usando o seu celular para filmar, “eu queria saber como ficaria o resultado estético e técnico,” relata.

Este curta faz parte de um conjunto de ensaios audiovisuais realizados em celular, sem nenhum outro tipo de suporte, e contou com o apoio e parceria da artista visual, fotógrafa e design, Leliane de Castro, que assina assistência de direção, finalização, registros fotográficos e cartaz. A partir do universo onde estava imersa (praia de Boiçucanga, no Litoral Norte de São Paulo) a diretora, Elizabete Martins Campos, dialoga com o ambiente, seus elementos naturais, captando sons de mar, vento e até vozes de crianças na areia, expressões que surgem na frente do registro, como a de um garoto que, espontaneamente, recolhe e coloca no ponto de vista da mesma, um lixo plástico na areia: uma rodinha de carrinho, misturada a entulhos, galhos vindos do mar após uma forte chuva no dia anterior. O menino parecia saber do que se tratava o curta, ofertando um objeto, um signo importante ali, naquele momento, naquele quadro.

Assim, o enredo surgiu entre vozes da personagem Georgeta Gonçalves, suas expressões literárias e experiências profissionais, sons e imagens de natureza e vozes de transeuntes anônimos, que deixaram registrados suas interferências cênicas e no desenho de som. Interessante é que em seu livro, “Um Gato No Mercado”, Georgeta traz exatamente uma crônica que trata deste e outros tipos de desrespeito, em especial aos idosos no Brasil: “pense numa criatura mal humorada, muito. Façam uma operadora ligar três vezes perguntando se ela é Vera Lúcia, insistam. Ela tem a certeza que não é? Então, a criatura sou eu ontem, pouco antes de entrar no ônibus e dar de cara com um sujeito ocupando dois lugares preferenciais com as pernas bem abertas, uma lata de cerveja na mão e um palito de dentes no canto da boca”.