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Conheça a prefeita eleita em Ubatuba, Flávia Pascoal (PL)

Foto: Renata Takahashi / Tamoios News

Na tarde de quarta-feira (18), a prefeita eleita de Ubatuba, Flávia Pascoal (PL) recebeu a reportagem do Portal Tamoios News em sua casa para uma entrevista exclusiva. A conversa durou cerca de 40 minutos. Passados apenas três dias da eleição, Flávia disse que ainda está “anestesiada” com a vitória nas urnas e não adiantou nenhum nome que vai compor seu secretariado.

Na entrevista, ela falou sobre suas experiências na área da educação e na política, os ataques que sofreu durante as eleições, a relação com a nova Câmara e o apoio do prefeito eleito de Ilhabela Toninho Colucci (PL).

Flávia também comentou sobre temas como verticalização, transparência nos gastos da Comtur, comunidades tradicionais, taxa de preservação ambiental, turismo de um dia, temporada de verão e pandemia.

Mulher, mãe, professora, política

Flávia Cômitte do Nascimento, 43 anos, natural de Ribeirão Preto (SP), é a primeira mulher eleita prefeita em Ubatuba. Ela chegou ainda jovem no município, aos 13 anos. Na época, conta que estudava de manhã e à noite, sendo que à tarde trabalhava no comércio do pai, a lanchonete “Cacha Prego” no Itaguá. Casou-se aos 17 anos com Maclaud, que conheceu na Escola Municipal Altimira Silva Abirached. Aos 26 anos teve duas filhas, as gêmeas Júlia e Sophia.

A mãe de Flávia era professora e a incentivou a estudar o magistério. Flávia começou dando aula como substituta na rede estadual, depois prestou concurso público, foi aprovada e ingressou como professora da educação básica na rede municipal em 1998. Durante esses 22 anos como servidora pública, conta que foi nomeada para diferentes cargos comissionados da educação, em todos os governos desde Paulo Ramos, prefeito eleito nas eleições de 2000. “Eu passei por todos os governos dos últimos prefeitos nesses cargos. Desde o Paulo Ramos, quando eu fui diretora, depois veio o governo Eduardo César, eu fui supervisora de ensino, e no governo Sato eu fiquei 40 dias na secretaria de educação”, relembra. Durante o governo de Maurício Moromizato, de 2013 a 2016, Flávia foi vereadora.

A experiência de Flávia como gestora na educação foi o que a motivou a sair candidata a vereadora nas eleições de 2012. “Comecei a perceber a influência da política dentro do processo de educação, que muitas vezes nos prejudicava, às vezes uma atitude da Câmara que não vinha de encontro com a situação da educação, e eu pensei que poderia contribuir”, conta. A iniciativa de se filiar e sair candidata foi dela. “Ninguém me convidou, eu falei que queria ser candidata.” Já na primeira tentativa, Flávia foi eleita vereadora pelo PDT com 1.250 votos.

Em junho de 2015, na Câmara de Ubatuba, quando Flávia era vereadora. (Foto: Renata Takahashi/Arquivo)

Em 2016, no final de seu mandato como vereadora, Flávia resolveu ir além e se candidatar para prefeita. Mudou de partido, foi para o PSB. Perdeu para Délcio Sato (PSD), mas teve um número expressivo de votos (6.563 / 14,47% dos votos válidos), o que a encorajou a concorrer novamente ao cargo em 2020. Desta vez, se filiou ao PL e saiu vitoriosa, com 14.222 votos (31,37% dos votos nominais, 45% dos votos válidos).

Flávia acredita que ter sido candidata em 2016 fez com que ela ficasse mais conhecida na cidade. Outra coisa que favoreceu a vitória este ano, em sua análise, foi a mudança de estratégia da campanha. “A outra campanha eu comecei do centro para os extremos. Esta campanha eu comecei dos extremos para o centro. Então, eu tive muito apoio dos bairros, dos extremos da cidade”, conta.

Como consequência de ter seu nome como um dos favoritos para a prefeitura de Ubatuba nas eleições de 2020, Flávia também foi um dos principais alvos de ataques de outros concorrentes ao cargo. Ela afirma que seus advogados entraram com procedimentos jurídicos contra desinformações e calúnias que foram publicadas nas redes sociais.

Nova Câmara

Apenas dois dos dez vereadores eleitos para o Legislativo 2021-2024 em Ubatuba se elegeram por partidos da coligação de Flávia, Adão Pereira (PSB) e Rogério Frediani (PL). Sobre como será sua relação com a nova Câmara, a futura prefeita disse que respeita todos os vereadores eleitos. “Cada um tem o seu perfil, tem o seu eleitorado, representa as pessoas, foram eleitos, legitimados pelo voto, então temos que respeitar todos eles, que representam o povo. Então, do meu lado, estou aberta para ouvi-los, que eles possam trazer as demandas da população, cada um na sua área, e a gente poder trabalhar junto”, planeja.

Equipe

A prefeita eleita ainda não quis adiantar nenhum nome de seu secretariado. Segundo Flávia, no momento ela está montando a equipe que entrará para fazer a transição. “A principal questão agora é entender os contratos, as obras em andamento, pra gente ter uma visão geral do que está acontecendo lá na prefeitura”, explica. Ela sinalizou que buscará avaliar o perfil técnico dos nomes que serão indicados para compor as pastas na prefeitura, “pois a nossa cidade precisa muito avançar e não há tempo para errar”.

Sobre o apoio que recebeu do prefeito eleito em Ilhabela, Toninho Colucci (PL), que fará seu terceiro mandato à frente do Executivo do arquipélago, Flávia foi enfática ao garantir que ele não influenciará suas decisões no governo. “Ele vai administrar a cidade dele, eu vou administrar Ubatuba”, assegura.

Flávia no lançamento de sua pré-candidatura à prefeita, em março de 2020 na Praia Grande em Ubatuba. (Foto: Renata Takahashi/Arquivo)

O crescimento desordenado de Ubatuba é uma preocupação da nova prefeita, que quer criar e discutir junto ao Conselho da Cidade a revisão do Plano Diretor, respeitando o que preconiza o Estatuto da Cidade. Temas polêmicos como a verticalização (permissão para construção de prédios), segundo Flávia, serão decididos com participação da população.

Comtur

Outro tema bastante controverso em Ubatuba é a situação da Companhia Municipal de Turismo (Comtur), que não presta contas detalhadas das grandes quantias arrecadadas com a cobrança da Zona Azul e de taxas de ônibus e vans de turismo. Flávia promete que isso vai mudar no seu governo. “A gente quer informatizar, vamos ver a melhor forma, aplicativo, cartãozinho, e o dinheiro tem que ir direto na conta. Eu falei bastante nos bairros que dinheiro na mão é vendaval, não existe dinheiro na mão, só aqui na cidade que ainda existe. Então nós temos que informatizar a Comtur e saber o que realmente entra ali de recurso”, afirma.

Turismo e questões socioambientais

Sobre como pretende lidar com críticas e opiniões divergentes em seu governo, Flávia afirma que quer estar próxima a população e dar atenção aos bairros, não apenas a região central ou aos locais de interesse turístico.

Em relação às comunidades indígenas, quilombolas e caiçaras de Ubatuba, a nova prefeita disse que quer valorizar essas comunidades tradicionais e incentivar o crescimento do turismo de base comunitária como forma de geração de renda.

Também dentro da temática do turismo, durante o governo Sato foi aprovada a lei que autoriza a cobrança da Taxa de Preservação Ambiental. A licitação para a contratação de empresa para implementar a cobrança, porém, foi suspensa diversas vezes. “Eu penso que se for feita a gestão correta, a taxa é importante para o município, nós sofremos com muitas questões de degradação ambiental, o lixo é muito caro, precisamos implantar ações de coleta seletiva, isso tudo gera muito gasto. Então esse recurso poderia vir de encontro com isso”, afirma. Flávia acredita ser importante investir em educação ambiental e colocar agentes nas praias que busquem minimizar os impactos do turismo.

Ainda sobre turismo, a prefeita eleita em Ubatuba comenta que as excursões que vêm para a cidade no esquema “bate-volta”, também chamadas de turismo de praia e sol ou turismo de um dia, precisam ocorrer de forma ordenada, levando em conta a preservação ambiental e a história, cultura e memória do município. “Eu acho que tem que ser avaliado desde a entrada e todo o encaminhamento dessas pessoas, até a destinação de onde eles vão. Se ele for bem encaminhado e a gente planejar a quantidade de pessoas, podemos trabalhar esse tipo de turismo”, avalia Flávia. Ela acredita ser importante o planejamento junto ao Conselho de Turismo, para que Ubatuba não seja uma cidade que não recebe as pessoas, mas que também não seja um local sem regras. “Temos que estar preparados para receber, encaminhar, orientar, porque se a gente não estiver preparado as pessoas vão fazer o que querem”, afirma. Seu principal desafio, ela avalia, será incentivar o turismo o ano todo, e não apenas concentrado durante a temporada de verão.

Verão 21 e Covid-19

Na saúde, Flávia conta que uma de suas prioridades será estruturar um pronto-socorro adequado ao tamanho da cidade e dar encaminhamento à obra da UPA da região sul, que encontra-se abandonada e está se deteriorando. Outra preocupação da prefeita é com a gestão da saúde durante a temporada de verão, uma vez que esta será a primeira temporada desde a chegada da pandemia da covid-19 no Brasil. Ela acredita que é possível planejar ações de orientação nas entradas da cidade e nas praias para que os turistas respeitem os protocolos sanitários de prevenção do novo coronavírus.

Para encerrar o bate-papo, Flávia agradeceu a todos os eleitores que confiaram nela, disse que está muito orgulhosa por ser a primeira mulher prefeita de Ubatuba e quer trabalhar muito junto com a população para fazer valer cada voto que recebeu. “Vamos enfrentar diversos desafios. Quero poder contar com o apoio dos nosso deputados, hoje temos uma bancada forte do PL, tanto deputado federal quanto estadual. Nossa cidade tem o menor orçamento da região e diversas demandas que não foram resolvidas. Teremos muito trabalho. E eu conto com o apoio dos servidores públicos, principalmente os efetivos, que independente de governo estão lá e muitas vezes não são valorizados”, conclui.

*Texto: Renata Takahashi / Tamoios News