Cidades Ubatuba

Protesto em estátua lembra traição aos tamoios em feriado de Ubatuba

Foto: Maria Capai

No dia do feriado municipal da Paz de Iperoig, o conjunto de pequenas estátuas do aperto de mão que relembra o armistício firmado em 1563 entre os portugueses e os índios tamoios serviu de espaço para um protesto em Ubatuba. A figura do índio apareceu com uma faca nas costas e sangue jorrando sobre o laguinho da fonte da controversa instalação localizada no calçadão entre a praia e a Avenida Iperoig. A intervenção feita na estátua lembra a traição portuguesa que aconteceu já no ano seguinte, quando os tupinambá e seus aliados voltaram a ser atacados e escravizados.

A estátua e a fonte, contudo não foram danificadas, uma vez que a artista plástica Maria Capai, autora da intervenção, utilizou celofane para representar o sangue e o cabo da faca de brinquedo foi fixado com fita dupla face. “A escolha dos materiais passou pela preocupação de não danificar a estátua e a fonte, além de não gerar resíduos que envolvessem a necessidade de limpeza especializada”, explica a autora da intervenção.

Foto: Maria Capai

A chamada Confederação dos Tamoios foi uma aliança militar que uniu diversas etnias indígenas da região que hoje inclui o Litoral Norte Paulista e Sul Fluminense além do Vale do Paraíba, que se uniu para lutar contra a colonização portuguesa e a escravização de indígenas, também chamados de tamoios, que em tupi quer dizer “os mais antigos”.

“Quem liderava a confederação dos Tamoios eram os caciques do povo Tupinambá que já habitava a região de Ubatuba havia mais de 500 anos antes da chegada dos portugueses, quando se suplantaram grupos do tronco macro-jê que viviam aqui”, explica o historiador Leandro Cruz, professor da Rede Pública em Ubatuba. “Eles tinha canoas enormes e velozes, conheciam o território marítimo e terrestre como ninguém, as plantas de cura e veneno, e tinham um estoque infinito de flechas já que aqui é um lugar onde tem abundância de ubá, a planta que eles usavam para fazer flecha. Por isso a Confederação dos Tamoios colocou em risco, sim, as ambições coloniais portuguesas.”

Segundo o historiador, os padres jesuítas como José de Anchieta e Manoel da Nóbrega se opunham à escravidão indígena, mas torciam para os portugueses vencerem a disputa com os franceses que em 1555 ocuparam a baía de Guanabara (no atual Rio de Janeiro) liderados por Nicolas Durand Villegagnon, com um projeto colonial chamado França Antártica.

“A verdadeira religião de Villegagnon eram as armas e os negócios, mas ele chegou oficialmente católico à costa do Brasil pela primeira vez em 1554. Naquela época a França vivia suas guerras religiosas e, se declarar católico ou protestante significava declarar de que lado na disputa política a pessoa estava. Vilegagnon acabou se convertendo quando seu financiador, o almirante Gaspar de Coligny, se declarou protestante e começou a planejar transformar a França Antártica não só num entreposto comercial onde adquiriam madeira para tinta e construção naval, mas também um lugar onde assentar huguenotes, os franceses calvinistas, que fugiam das guerras religiosas”. A conversão de Villegagnon deixou os jesuítas preocupados uma vez que isso poderia comprometer futuramente a hegemonia católica no continente.

Em troca de pau-brasil, Villegagnon forneceu armas de fogo aos tupinambá que, ao combaterem os portugueses, acabavam por ajudar o projeto colonial francês. Essa reviravolta levou os portugueses a aceitarem sentar para negociar com os tamoios graças à intermediação de Nóbrega e Anchieta. Nas negociações, os mediadores jesuítas conseguiram que dois lados fizessem aquilo que os padres queriam.

De um lado, os portugueses deveriam libertar todos os escravos indígenas e não voltar a escravizá-los. Do outro lado, as aldeias coligadas na Confederação dos Tamoios, que abrangia um enorme território entre Angra dos Reis e Bertioga, não mais atacariam as vilas portuguesas, deixando de tomar parte do conflito entre os portugueses e huguenotes.

“No século XX, alguns políticos e escritores, como o memorialista Washington de Oliveira, o ‘Seu Filhinho’ buscaram valorizar o armistício de 14 de setembro numa tentativa de reinserir Ubatuba na História e no Mapa do Brasil, celebrando a data como o primeiro acordo de paz das Américas. Mas essa é uma leitura posterior, na prática, no contexto dessas guerras de conquista colonial o armistício não pode ser considerado um bom exemplo de tratado de paz, uma vez que depois que os tamoios baixaram a guarda a trégua não foi respeitada por muito tempo pelos portugueses”, explica o historiador.

Foto: Maria Capai

Os tupinambá da aldeia de Iperoig e de todo território tamoio acabaram sendo completamente massacrados ao longo do século que se seguiu até a fundação da vila de Ubatuba sobre as ruínas da aldeia em 1637, quando a região era considerada “pacificada”.

Os franceses acabaram sendo expulsos pela armada de Estácio e Mem de Sá em 1567, com a ajuda dos índios termiminó liderados pelo famoso cacique Araribóia. “As tropas portuguesa, tupiniquim e termiminó sob o comando do Estácio de Sá venceram a resistência dos tupinambá e franceses, mas ele não pôde ver o fim da batalha já que uma flecha tamoia envenenada atingiu o olho do governador português”, lembra o professor.

O professor pontua ainda que não foram só os portugueses e tribos rivais que contribuíram para a extinção dos tupinambá da região, uma vez que doenças trazidas e transmitidas pelos franceses por meio das armas, roupas e outros “presentes” acabaram ajudando a enfraquecer e eliminar os tamoios.

Foto: Maria Capai

Sobre o protesto artístico de Maria Capai, o historiador, afirma que considera válido e importante questionar a discussão pública da sociedade sobre seus espaços de memória. “É importante para Ubatuba ter os seus espaços de memória coletiva, por isso é importante a preservação de locais como os casarões do Centro, do século XIX, e as ruínas dos engenhos e senzalas dos sertões, que são a maioria do século XVIII. Já esse tipo de monumento, como essas estátuas do português e o indígena se cumprimentando enquanto um padre olha de fora, inauguradas em 2012, tem por objetivo criar um espaço de memória de um fato importante que aconteceu num período muito anterior, do qual praticamente nada sobrou de testemunho material. Isso é importante. Mas eu considero muito legítimas a problematização da forma como o fato histórico está sendo abordado naquela representação. Sem contar que a obra é também bastante questionável do ponto de vista estético”, opina Cruz.

*Texto: Renata Takahashi / Tamoios News

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