Cidades

São Sebastião padece de “falta de identidade turística” e fica estagnada no tempo

Vende

Lojas fechando, falta de perspectiva de trabalho aos jovens, má gestão política, criminalidade; para muitos, São Sebastião nem existe ou é só passagem

Por Marcello Veríssimo

O Jogo acabou. Game Over. Fim da Linha. Não é raro pelas ruas do Centro de São Sebastião placas de “Passo o Ponto”, “Aluga-se” ou “Vende-se”, isso demonstra que a cidade sente o reflexo da recessão do país, mas com suas particularidades: falta de investimento público em turismo, no setor de hotelaria e comércio, além de outras características visíveis aos olhos de todos. Acentuaram-se nos últimos anos o aumento de andarilhos, o desemprego e a insegurança, incluindo a Costa Sul, com suas praias badaladas e segurança somente dentro dos condomínios de luxo e fechados. “Mataram nosso segurança, tem muito assalto, tráfico de drogas”, relata a empresária Patrícia Zarranz, que já se mudou de Juquehy para o interior.

Isso são fatores que, segundo especialistas em turismo, contribuem para a “falta de identidade” que o município possui – o que afeta famílias, até mesmo de caiçaras, optarem pela mudança como no caso de Patrícia, que mantinha um bistrô na Avenida Mãe Bernarda, uma das mais movimentadas do bairro, que apesar de concentrar muitas lojas, restaurantes e até uma espécie de shopping amarga baixo movimento até mesmo no verão. “Essa vontade de mudar vem sendo trabalhada já algum tempo”, completa Patrícia, que ainda pretende manter o restaurante aberto mais um período. “Saúde e Educação também possuem seus déficits, estão sem respaldo, para quem mora no município. Morando em Juquehy, levava todos os dias minha filha para a escola em Boiçucanga”, disse a empresária, que, por enquanto, não se arrepende dos novos rumos da vida da família saindo de São Sebastião.

Bons tempos – Situação bem diferente de outras décadas quando integrantes de famílias mais tradicionais do bairro Arrastão e Pontal da Cruz chegavam a considerar São Sebastião como a “Paris Paulista”. Nos anos 80 e 90, São Sebastião honrava-se em ter o “Melhor Carnaval do Litoral”, título hoje com certeza nas mãos da cidade vizinha Ilhabela, que se especializou em atender bem diferentes nichos, entre eles o ecoturismo e o turismo de navios de cruzeiros. Na Vila, o Centro Histórico do arquipélago, restaurantes de alta gastronomia e baladas para os jovens. Já a Rua da Praia, que já marcou gerações como ponto de encontro da moçada, hoje em dia, ou melhor, à noite fica às escuras. 

Assunto que recentemente foi abordado em reunião dos vereadores na Câmara de São Sebastião com relação à boate Sirena, em Maresias, na costa sul de São Sebastião como sendo uma espécie de “galinha dos ovos” para o turismo local. A preocupação dos parlamentares se deu em um contexto de que, a boate Sirena, não pode ser o único “chamariz” para atrair turistas, além das praias. Tanto que vários turistas pensam que Maresias, por causa da balada, seja uma cidade, não apenas uma praia, um bairro. “Na Costa Sul, mesmo existindo a sazonalidade, baixa temporada também está ruim”, admite o presidente da Associação Comercial de São Sebastião, Eduardo Cimino. Para ele, entre as cidades do litoral São Sebastião sofre um pouco mais por ter mercado consolidado apenas por micro e pequenas empresas, exceção do Pão de Açúcar. “Caraguatatuba é um grande polo de distribuição profissional na região. Lá estão os grandes atacadistas, concessionárias. A maioria do empresariado não é local”, completou Cimino. A Associação Comercial de São Sebastião não tem parâmetros de medição oficiais sobre estabelecimentos comerciais que abrem ou fecham na cidade. “As vendas caíram, os estabelecimentos permanecem inalterados”, disse Eduardo, que afirmou ainda que esse tipo de medição é feita pela Junta Comercial do Estado de São Paulo. No escritório regional, em São José dos Campos, ninguém responsável foi encontrado para comentar o assunto.

História de amor – Uma história de amor de amor, conhecimento e decepção. Foi o que viveu a carioca Claudia Assunção, 52, durante os 12 anos que morou em São Sebastião junto com o marido Bernardo e seus 3 filhos. Ela conta que na época o mais velho, então com 15 anos, preferiu permanecer na capital fluminense junto com os avós em razão dos estudos. “Os mais novos são gêmeos, e tinham apenas de 2 para 3 anos quando fomos morar em São Sebastião”, contou Claudia. Ela e o companheiro são biólogos, foi então que resolveram morar perto do Cebimar, o Centro de Biologia Marinha da USP onde Bernardo cursou sua pós. Neste período, em 2004, Claudia deu aulas na antiga Fass, mas em 2005 voltaram para o Rio permanecendo o ano lá, antes de voltarem com os filhos definitivamente para São Sebastião.

Era 2006 Claudia e a família voltaram para São Sebastião. Época em que o conceito da Agenda 21 estava em alta e Claudia passou a integrar a equipe. “Mas nunca houve interesse da administração em profissionalizar o Fórum da Agenda 21 em São Sebastião”.

No ano seguinte, Bernardo dava aulas na escola municipal em Boiçucanga quando foi anunciado no ano de 2007 um concurso público na gestão do prefeito Juan “com vaga para biólogo. Era a oportunidade que esperávamos”, disse o casal. Bernardo passou em segundo lugar, a esperança da família ganhou novas forças. “Sabíamos que precisavam de mais de um biólogo”. “Mas não chamaram nem o primeiro colocado”, disse Claudia.

Em 2008, com a derrota de Juan nas urnas o novo prefeito Ernane Primazzi, segundo Claudia, deixou o “concurso caducar”. Desde então, a decepção do casal foi aumentando conforme enxergavam a degradação da cidade. “Como nossos filhos gêmeos se formaram no ensino fundamental ano passado, resolvemos mudar para não prejudica-los tanto nos estudos”.

A vida da família voltou a caminhar em Minas Gerais. “Gostaria muito de poder pensar que houvesse a possibilidade de voltar para São Sebastião, mas…”, suspira Claudia.

Outra que mudou de São Sebastião e está seguindo vida nova, prosperando fora de terras caiçaras é a ex- empresária Fabiana de Aguiar Cimidamore Jurcic, 35, que tentou por três temporadas entre 2008 e 2011 manter uma sorveteria de alto nível na Rua da Praia. “Chegamos respeitando a tradição das concorrentes e de repente vimos um buraco negro. É uma cidade que poucos pensam no próximo, mas muitos pensam apenas em si”, disse ela, que hoje trabalha em uma multinacional francesa na Região Metropolitana Vale do Paraíba. 

Comércio 3

Na Rua da Praia, com o tempo Fabiana conta que não viu “nenhuma perspectiva de mudança”. Foi então que montou a sorveteria em Caraguatatuba onde permaneceu por mais cerca de 2 anos, antes de resolver deixar a região. “São Sebastião deveria ser um exemplo em turismo. As crianças deveriam ter computador nas escolas públicas, andar uniformizadas”, desabafa. Para Fabiana, que pensa com cautela se voltaria ao município atualmente, o que ficou de bom da experiência na cidade, além do aprendizado, foram os 11 animais que ela adotou em São Sebastião. “São 7 gatos e 4 cachorros; 9 deles peguei na Rua da Praia”.

Migração – A revoada de moradores de São Sebastião também é comprovada em números. Enquanto uns saem, outros chegam. O problema, para a população local, é que só tem chegado mendigo.

De janeiro para cá, caiu consideravelmente à aquisição (99,79%) de imóveis usados para aluguel ou compra no Estado, segundo o Secovi (Sindicato da Habitação) de São Paulo, que desde janeiro também amarga queda de (40, 61%) na produção de imóveis novos. Ainda de acordo com a pesquisa o índice de financiamentos imobiliários no estado a produção de imóveis novos também caiu cerca de (37,49%).

A Prefeitura de São Sebastião não comentou o assunto. A Delegada Regional do Creci (Conselho Regional de Corretores de Imóveis) não foi localizada.

 

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