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Iperoig e Confederação dos Tamoios, uma história de resistência

Tão importante quanto o dia 28 de outubro, o 14 de setembro também é um feriado em Ubatuba. Mas poucos sabem porque. O 14 de setembro lembra que a história de Ubatuba está enraizada lá nos primeiros anos do Brasil colônia e é uma historia de resistência, bravura e traições.

Cabral maravilhou-se com a recepção amistosa dos índios tupiniquins em 1500 mas, aqui na região, 50 anos depois, entre Cabo Frio e Bertioga os índios Tamuias ou Tamoios – que significa “os mais antigos donos da terra, os primeiros” – travaram guerra direta com os “pêros”, como eles chamavam os portugueses.

Tamoios é um nome genérico que reúne várias tribos num mesmo grupo como os Tupinambás, Guaianases e Aimorés. No meio, a aldeia de Iperoig, o primeiro nome de Ubatuba.

A UNIÃO DOS 5 CHEFES

Os índios da região começaram a resistir à ocupação quando os “pêros” começaram a invadir aldeias, aprisionando índios em busca de braços escravos para as recém iniciadas lavouras de cana em São Vicente, massacrando mulheres e crianças, coisa que os índios, mesmo antropófagos, nunca faziam. Se mulheres e crianças não lutavam, por quê matá-los? Eles não entendiam.

Por vezes as datas se desencontram, mas por cerca de duas décadas, entre 1554 e 1575, a união de cinco chefes indígenas, depois conhecida como Confederação dos Tamoios, foi a única resistência organizada contra a colonização portuguesa.

Liderados pelo tupinambá Cunhambebe, de Angra dos Reis, o chefe Coaquira, de Ubatuba, Pindobuçu mais Aimberê, de Cabo Frio e Ararai, chefe dos Goianases, os índios, hábeis canoeiros e bons no arco e flecha, passaram a contar também com algum apoio armado dos franceses que ocuparam a aldeia dos cari ou cari-oca, a casa dos brancos, como os índios chamavam o Rio de Janeiro. Mas sendo calvinistas evangélicos, isso só reforçava as razões para mais ataques dos católicos portugueses aos índios e aos “mairs” ou franceses.

ATAZANANDO A VIDA

As constantes ações dos índios infernizavam e muito a vida dos lusitanos. Por exemplo, em 9 de julho de 1562, aos gritos de “jukaí karaíba!” (morte aos portugueses!) os Tamoios atacaram em massa a então pequena São Paulo do Piratininga. Não fosse a ação de João Ramalho e do cacique Tibiriçá, hoje enterrados na igreja da Sé, por pouco São Paulo não foi varrida do mapa.

Por isso, os “pêros” queriam negociar. Apelaram para os padres jesuítas José de Anchieta, que falava muito bem o tupi-guarani, e Manoel da Nóbrega, para que buscassem conversações de paz. Eles chegaram nas praias de Ubatuba em 1563, vindos de São Vicente num navio do italiano Francisco Adorno.

Foram recebidos aqui pelo próprio Coaquira que os hospedou na sua aldeia de Iperoig. Os outros chefes foram chamados. As conversações eram longas, enroladas.

Por exemplo: Aimberê perdeu as primeiras reuniões, chegou atrasado. Quando viu todos reunidos de boa, esculhambou com os outros chefes por já entrarem na conversa dos padres.

Aimberê preferia ver Nóbrega e Anchieta assados e devorados junto com a cabeça de três chefes tupiniquins de São Paulo, entre eles Tibiriçá, que ajudavam os pêros. Daí que as primeiras negociações não foram nada fáceis.

COMISSÃO DE FRENTE

Aimberê era o mais revoltado pois tinha perdido mãe e irmãos num ataque português à sua aldeia de Uruçumirim e viu seu pai Cairuçú morrer por maus-tratos como escravo. Ele próprio só se salvou fugindo de São Vicente.

Aimberê impunha condições que envolviam a soltura de todos os índios escravizados e o fim das invasões de aldeias. Os padres negaram-se a entregar os outros chefes.

Foram vários dias de discussões e ameaças de morte. Venceram os argumentos dos caciques Coaquira e Cunhambebe. Decidiram mandar uma comissão de negociação, de volta a São Vicente para conversarem com as “autoridades” portuguesas, com Nóbrega, Aimberê e Cunhambebe.

Foram meses de espera, entre maio e setembro. Anchieta tinha ficado aqui em Ubatuba como refém. Nesse entretempo, conta a lenda, o padre – que “sofria de espinhela caída” ou dor na coluna, era corcunda – teria escrito nas areias da praia de Iperoig, 5.732 versos num poema à Virgem Maria, decorando-os para reescrevê-lo depois.

A PAZ DE UM ANO

Em 14 de setembro de 1563, a comissão voltou com a notícia do acordo. Os portugueses prometeram que não escravizariam mais os Tupinambá do litoral e esses, por sua vez, não atacariam as vilas e fazendas dos pêros. Isso ficou assim conhecido como a Paz de Iperoig.

Mas a tal paz durou pouco mais de um ano. A guerra deu um pequeno alívio, mas as escaramuças retornaram. Os portugueses voltaram a atacar a aldeia de Coaquira. A Confederação voltou a mostrar força.

Cunhambebe havia morrido de varíola. Aimberê assume a liderança. Chefes de aldeias mais afastadas invadiam fazendas e engenhos em pequenos grupos.

Foi quando o rei português apelou para Estácio de Sá, sobrinho do governador do Rio. A ocupação francesa de 10 anos já preocupava. Os índios também. Em 8 de janeiro de 1567, com o reforço de três galeões vindos de Portugal e dois navios de guerra com canhoneiras,1.500 soldados mais ajuda dos índios de Araribóia.

Estácio de Sá começa um contra-ataque até o fim dos resistentes. Foram varridos do mapa. O próprio Anchieta, descreve em livro“os feitos de Mem de Sá, herói das plagas do Norte” com detalhes desta “batalha sangrenta em que as armas lançaram o inimigo, nativos e calvinistas, ao extermínio medonho, contando 160 aldeias incendiadas, mil casas arruinadas”.

COMEÇA A COLONIZAÇÃO

Pestes como o sarampo e a varíola acabaram com os Tamoios restantes. Já no início do século 17, não havia mais nenhum índio Tupinambá no Sudeste do Brasil. Alguns poucos remanescentes refugiaram-se na Serra do Mar ou avançaram Brasil adentro.

Dizimados os índios, colonizadores brancos puderam, enfim, ocupar as terras ubatubanas. Jordão Homem da Costa, fundador de Ubatuba, era um nobre português dos Açores, seguido por outros como Salvador Corrêia de Sá, nome da rua onde já funcionou o anexo da Câmara.

Iperoig teve seu nome mudado para Vila Nova da Exaltação da Santa Cruz do Salvador de Ubatuba conseguindo a emancipação em 28 de outubro de 1637. A data é tida hoje como o aniversário da cidade.

Com a expansão do café no Vale do Paraíba, a cidade torna-se grande porto exportador. Em 1855 tornou-se Comarca de Ubatuba e em 1944 Estância Balneária. Hoje, com população estimada em 92.819 habitantes [2021, IBGE], Ubatuba luta para fortalecer-se como cidade turística, buscando desenvolvimento sustentável , cobrando saneamento, melhor educação, mais saúde e pela ampliação de oportunidades de trabalho.

O BRAZÃO DOS 5 ÍNDIOS

A história relata embates entre portugueses e índios até por volta de 1575, quando Aimberê morre próximo a Cabo Frio. Assim, restou a memória desta guerra de doze anos, tida hoje pelos historiadores como a maior organização indígena de resistência à ocupação dos brancos na história das três Américas.

Toda cidade, todo país tem seus símbolos cívicos, como a bandeira e os brazões. A Bandeira do Brasil é um símbolo da Pátria, por exemplo. Um brazão é uma espécie de desenho que conta um pouco da história da cidade.

Como nasceu

Em 28 de outubro de 1937, aniversário da cidade, o então prefeito Washington de Oliveira – “seu” Filhinho – enviou à Câmara o projeto de lei para instituir os símbolos ou o brasão da cidade com uma justificativa resumindo o significado dos mesmos:

A cruz que foi empunhada pelos missionários José de Anchieta e outros, lembra o nome dado à cidade pelo seu fundador, Jordão Homem da Costa, depois de afastados os indios tamoios:

Exaltação da Santa Cruz do Salvador de Ubatuba

As duas plantinhas ou “dois caniços cruzados ao pé da cruz lembra as origens do nome Uba-tuba, palavra de origem indígena, significando lugar onde tem muitos pés de ubá, espécie de cana silvestre ou cana-do-rio usada para fazer flechas”.

Finalmente, a canoa com cinco remadores navegando no mar, lembra a atividade dos indígenas estabelecidos nesta região. Os 5 remadores na canoa são: Cunhambebe, Aimberê, Pindabuçu, Coaquira e Araraí, os chefes que formaram a Confederação dos Tamoio.

Serve de timbre ao escudo, a coroa mural de ouro convencionalmente adotada para caracterizar as armas dos municípios e cidades.

*Texto: Antônio Marmo, Setor de Comunicação da Câmara de Ubatuba