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Sem visitantes, animais transitam livremente pelas Unidades de Conservação

Na colagem, alguns grandes mamíferos fotografados por câmaras trap em Unidades de Conservação.

O conceito de flanar remete à Paris reurbanizada no final do século XIX, quando cidadãos elegantes caminhavam pelas ruas da cidade apenas pelo prazer admirar sua cidade renovada, sem destino e sem culpa. Flanar significa, então, usufruir do espaço público que pertence a todos mas, antes de tudo, que pertence exclusivamente a cada um.

Desde março do ano passado, as Unidades de Conservação da Fundação Florestal têm passado por diferentes níveis de abertura ao público, ora estão abertas com capacidade limitada, ora completamente fechadas. Esse movimento é resultado das ações necessárias por parte do governo estadual para conter o avanço da Covid-19, evitando a aglomeração de pessoas. Desde março desse ano, os parques estaduais estão completamente fechados ao visitante, um longo período, algo novo na história das UCs.

Sem a presença humana, muitos animais silvestres, habitantes naturais das áreas de proteção ambiental, geralmente avessos a contato direto com o público, começaram a perceber um silêncio inédito acompanhado da ausência dos animados grupos de estudantes ou, até mesmo, grupos mais pacatos de senhoras. Foi quando os gestores locais começaram a registrar uma movimentação diferente em suas unidades. Esses são alguns registros:

Feena, Rio Claro. 6 de abril, 18h45: uma onça-parda (Puma concolor) é avistada a apenas 20 metros de distância no Jardim da Baronesa. É a primeira vez que ela tem a oportunidade de visitar esse novo atrativo da unidade sem ser incomodada.

Núcleo Caraguatatuba, PESM. Trilha dos Tropeiros, 5 de abril. O tamanduá (Tamanduá-mirim, Tamandua tetradactyla) não gostou muito do fotógrafo que o flagrou em plena caminhada de fim de tarde, mas tudo não passou de um mal entendido.

Estação Experimental de Paraguaçu Paulista. Domingo, 11 de abril, próximo à sede: O funcionário Silvio dos Santos, que havia instalado uma câmera trap, flagrou a bicharada flanando livre pelas áreas de uso público em ruidosa algazarra.

Parque Estadual Carlos Botelho. No mesmo domingo, uma Chironius bicarinatus, mais conhecida como cobra-cipó-verde ou caninana-verde sobe em uma árvore para observar sua propriedade de um ângulo diferente. Não longe dali, a jacutinga (Aburria jacutinga), uma espécie ameaçada, confere a demarcação das trilhas.

Monumento Natural da Pedra Grande. Na manhã de segunda feira, 15 de março, o vigilante Allan Claude Bastos avista um sagui-da-serra escuro (Callithrix aurita), na laje da Pedra Grande, paisagem cênica e ponto mais alto da Serra do Itapetinga. Na área ao lado, dois dias após na trilha das três Marias, em atividade de reforma e de fiscalização da trilha as equipes da OSCIP SIMBIOSE e do Parque Estadual Itapetinga se depararam com as marcas frescas da onça parda no solo e de suas garras no tronco das árvores.

Parque Estadual Vassununga passa por uma experiência ainda mais interessante. Fechado desde 2019 para segurança dos visitantes por conta da presença de javaporcos, essa unidade gradualmente se tornou um reduto seguro para que a fauna nativa pudesse literalmente reocupar seu espaço de direito. A unidade registra a presença frequente de onças-pardas (Puma concolor), lobos-guarás (Crhysocyon brachyurus), gato mourisco (Herpailurus yagouaroundi), irara (Eira barbara), catetus (Pecari tajacu), veados (Mazama sp.), esquilos (Sciurus sp.), teiu (Tupinambis sp.), jacupemba (Penelope superciliaris), dentre outros reinando soberanos por suas terras.

Para o gestor do PE Itapetinga (e substituto no PE Vassununga), Fabricio Pinheiro da Cunha, “As áreas de uso público são áreas naturais preservadas e os animais, em sua sabedoria, ocupam os espaços em busca de recursos, conforme se sintam mais confortáveis e seguros. Devido a enorme pressão que exercemos sobre a fauna é natural que certos grupos de vertebrados ampliem o uso dos espaços quando percebem a menor presença da espécie humana”. Fabrício conclui, “A interação com esses animais em vida livre, em suas moradas milenares, nos traz uma imensa alegria, em especial por conta das espécies cuja existência está ameaçada. O que estamos presenciando permite a cada um de nós se reconectar com a natureza e com a nossa essência humana. Isso nos motiva a continuar na luta pela conservação ambiental”.

Sabemos que um dia as restrições de acesso aos parques estaduais vão se encerrar e as visitas serão retomadas. Quando os parques reabrirem, os animais que hoje flanam livres em seu território, certamente vão se recolher para o fundo das matas. Mas uma lição fundamental deverá ter ficado desses tempos de reclusão. Aprendemos definitivamente que a unidade de conservação é a casa dos animais. Nós somos apenas visitantes ocasionais.

*Fonte: Fundação Florestal