Cidades Geral

‘Corre no quarto e tira sua filha do computador’: a história de uma jovem salva pelo Noad

Tamoios News
Imagem/Secretaria de Segurança do Estado de SP

Era madrugada quando o telefone da casa de uma adolescente de 15 anos toca. “Corre no quarto e tira sua filha do computador, rápido”. A orientação à mãe da adolescente partiu da delegada Lisandréa Salvariego, coordenadora do Núcleo de Observação e Análise Digital (Noad) de São Paulo.

A menina estava prestes a se mutilar em uma “panelinha” de uma rede social. O ambiente chega a reunir mil pessoas que acompanham as transmissões em tempo real.

A mãe da jovem duvidou no início. Achou que era engano, pois tinha certeza que a filha estava dormindo. “Ela está acordada, corre no quarto para evitar uma tragédia”, ordenou a delegada.

Os investigadores que acompanhavam tudo de forma simultânea percebem quando a mãe abre a porta do quarto surpreendendo a filha. Segundos depois, a transmissão é interrompida. O servidor por onde a live era transmitida cai, provocando um alívio na equipe: mais uma vida havia sido salva pelo Noad.

Esse é o trabalho enfrentado 24 horas por dia pela equipe coordenada pela delegada Lisandréa, que combate crimes virtuais contra crianças e adolescentes em plataformas digitais, como estupros, automutilação e até instigação ao suicídio. O Noad completou um ano de trabalho em novembro e já salvou 336 vítimas dos chamados “predadores digitais”.

A jovem, hoje com 16 anos, foi uma das primeiras vítimas a ser resgatada pelos policiais no âmbito da operação Nix, a primeira realizada pelo núcleo. “Faz um ano que deixei de ser vítima dessas pessoas e hoje consigo ajudar outras meninas que passam pela mesma situação”, contou à delegada.

Emocionada, a vítima também agradeceu o apoio: “Você se tornou uma mãe para mim. O que você faz é lindo e sou grata por sempre ter um ombro onde eu possa apoiar. Você me motiva a ser uma pessoa melhor.”

Com 18 anos de profissão, Lisandréa vê no Noad o maior desafio de sua carreira. Nas mensagens de agradecimento de pais e vítimas, ela encontra o incentivo necessário para continuar com o trabalho. “O Noad está preenchendo um espaço que até então era desconhecido das autoridades”, explica.

“Crianças e adolescentes estão sendo salvos de crimes no ambiente virtual porque um de nós não dormiu [a maioria dos crimes acontece durante a madrugada]. É uma satisfação pessoal que não tem preço. Quando você salva a vida de uma criança, salva também a de uma família. Que todos possam enxergar na polícia um colo, um lugar de acolhimento”, declarou a delegada.

Como acontecem os crimes contra a dignidade sexual?

Os estudos para a criação do Noad começaram há dois anos a partir de ataques a escolas em São Paulo. Inquéritos policiais confirmaram que as ações haviam sido combinadas, transmitidas e celebradas em plataformas digitais.

“Descobrimos que o problema era muito maior do que um ataque à escola. Havia um ambiente sem restrições onde eram realizados diversos crimes digitais, principalmente os relacionados à dignidade sexual”, explicou a delegada. Diante disso, foi aberta uma investigação com foco em salvar as vítimas.

De acordo com a chefe do Noad, cerca de 90% delas são meninas entre 7 e 16 anos que conhecem o agressor em um namoro virtual, dentro de uma plataforma de jogo online. Assim que tem a interação, os dois migram para um aplicativo de conversa e ficam meses trocando mensagens.

A partir do momento em que a vítima manda a primeira foto ou vídeo íntimo, começam as chantagens para ela continuar mandando o conteúdo sob ameaça de divulgação na rede. Com medo, a vítima obedece o agressor e é exposta a cenas de violência transmitidas em lives nas plataformas.

“O abusador é uma pessoa paciente. Não conheço nenhum caso em que a vítima tenha conversado por menos de oito meses com ele”, explica Lisandréa. “Eles são bons em engenharia social, então manipulam as crianças que não têm nenhum tipo de maturidade para lidar com a situação”, complementa.

Os “predadores digitais” atuam como uma organização criminosa. Os conteúdos íntimos recebidos são vendidos em cenários de pornografia infantil. Atualmente, 749 alvos estão em monitoramento pelo Noad, que já prendeu 21 pessoas e apreendeu 49 adolescentes infratores envolvidos nos crimes.

O trabalho iniciado pelo do núcleo virou referência em todo o país, com ações desencadeadas em outros estados a partir das investigações conduzidas em São Paulo. Neste ano, entrou na grade curricular dos cursos de formação da Academia da Polícia Civil (Acadepol), onde os policiais saem aptos a registrar ocorrências dessa natureza, que requer maior sensibilidade e um olhar analítico. Os profissionais do Noad também dão palestras em escolas e treinamentos para policiais de todo o Brasil.

Trabalho multidisciplinar

Para a delegada, é necessário um trabalho multidisciplinar para conter o avanço do problema, que envolve a regulamentação das redes sociais e a educação digital e sexual em casa, limitando o acesso aos aparelhos e seus conteúdos.

“A internet é o pior lugar do mundo para deixar seu filho sem acompanhamento. Hoje, os pais precisam entender que esses casos existem e não são isolados. O crime mudou e o criminoso atua sem nem precisar sair de casa”, alerta a chefe do Noad.

Assim como todo crime, é importante registrar o boletim de ocorrência assim que tomar ciência do fato. “Muitos pais não registram porque acham que a culpa pelo ocorrido é deles, mas nem sempre é uma falha intencional. É uma geração análoga às redes, que não entende como isso acontece”, explica a delegada.

O registro é importante para a polícia investigar e impedir que o agressor faça novas vítimas. “Não existe um agressor com apenas uma vítima. Ele faz inúmeras vítimas nas plataformas digitais”, diz.

Em abril deste ano, a Polícia Civil instaurou um inquérito para investigar uma plataforma online por apologia à violência digital. Ela segue sendo investigada.

Para denúncias relacionadas a crimes sexuais envolvendo crianças e adolescentes na internet, os pais podem acionar, além do Noad, as delegacias da Polícia Civil e o número do disque-denúncia da Polícia Militar.

Serviço:

Noad: nucleo.noad@sp.gov.br

Delegacia Eletrônica: https://www.delegaciaeletronica.policiacivil.sp.gov.br/ssp-de-cidadao/home

Disque-denúncia: 181

Fonte: Secretaria de Segurança do Estado de SP