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Especialistas sugerem ações para evitar encalhes e mortes de baleias-jubarte

Baleia-jubarte morta. (Foto: Marcos Fonseca)

Neste ano de 2021, está sendo registrada uma temporada atípica de baleias-jubarte na costa brasileira, com recorde de encalhes, com predominância de indivíduos juvenis, com distribuição incomum principalmente no Sul e Sudeste e número elevado de casos de emalhes de baleias em equipamentos de pesca.

Para saber mais sobre o que pode ser feito em relação às mortes de baleias-jubarte na costa brasileira, o portal Tamoios News ouviu representantes de três projetos que trabalham com esses animais. O coordenador de Pesquisa do Projeto Baleia Jubarte, Milton Marcondes; o oceanógrafo Hugo Gallo Neto, presidente do Instituto Argonauta; e o navegador Julio Cardoso, do Projeto Baleia à Vista. 

Foto: Prefeitura de Ilhabela

Projeto Baleia Jubarte

Segundo Milton Marcondes existe uma tendência de aumento de encalhes de jubarte no Brasil, porque a população está crescendo. “Em 2002 tínhamos cerca de 3.500 jubartes no Brasil e 22 encalhes. Agora temos mais de 20 mil. Com mais baleias a gente tem mais animais que morrem de causas naturais (doenças, predadores, separação do filhote da mãe, etc) e mais animais que morrem por problemas ocasionados pelas atividade humanas (emalhe em equipamento de pesca, atropelamento por navios, poluição, etc).” 

Marcondes explica que na mortalidade natural não temos como interferir, mas na mortalidade ligada a causas humanas podemos tentar reduzir o problema. “Na questão específica dos emalhes, temos orientado os pescadores que neste ano  se eles puderem evitar a pesca com rede seria melhor para as baleias e para evitar prejuízos como a perda do equipamento. Mas se eles não tiverem outra opção, eles não devem deixar o equipamento sem acompanhamento. E que no caso de aproximação de uma baleia da rede eles devem ligar o motor da embarcação (em neutro) e/ou bater na água para produzir ruído e assim ajudar a baleia a perceber que existe um obstáculo na frente dela”, afirma o coordenador. O Projeto Baleia Jubarte também tem trabalhado para buscar reduzir o risco de colisão com embarcações.

 Sobre o número atípico de encalhes, Marcondes afirma que “tudo indica que foi uma diminuição na quantidade de krill [pequenos crustáceos que servem de alimento a baleias]. Os juvenis ficaram mais por Santa Catarina e São Paulo e têm buscado alimento nestas águas. Com isso vem para águas rasas onde os pescadores colocam seus equipamentos e por isso temos mais casos de emalhes.”

Neste gráfico, os dados de 2021 correspondem ao período do início do ano até 31 de agosto.

 O  Coordenador de Pesquisa do Projeto Baleia Jubarte destaca que a presença de baleias no Brasil é benéfica pois elas ajudam no equilíbrio climático do planeta, trazem nutrientes da Antártica para cá e tem importância econômica no turismo de observação de baleias.

Instituto Argonauta

O oceanógrafo Hugo Gallo Neto, presidente do Instituto Argonauta, afirma que há problemas que transcendem ações pontuais. “Quando se fala em alterações climáticas e diminuição da disponibilidade de alimento no polo Sul, por exemplo, não tem como interferir, a não ser mobilizando a sociedade para mudanças nos hábitos de consumo, queima de combustíveis fósseis, etc.”

Em relação à questão da pesca, Hugo Gallo conta que tem sido discutido em grupos de conservacionistas e pesquisadores a seguinte medida: “na época em que as baleias estão passando, que houvesse por parte dos governos nas regiões onde essa mortalidade está ocorrendo, uma política de defesos que pagasse um valor consistente ao ponto de compensar os  pescadores para que não colocassem suas redes no mar. Eles seriam remunerados durante o período da passagem das baleias, que por infelicidade coincide com a captura de peixes no inverno, que é a época com maior quantidade de pescado nessas regiões.“

O oceanógrafo ressalta que “para haver adesão verdadeira e não prejudicar o já tão prejudicado pescador artesanal, deveria se pensar em um defeso  que compensasse ao pescador ficar em casa”. 

Outra sugestão de Hugo Gallo é realizar campanhas para que os pescadores que possuem barcos pudessem trabalhar com o que se chama de ‘whale watching’, que é levar turistas para observar baleias, o que poderia ser uma fonte de renda extra para esses pescadores.

Projeto Baleia à Vista

O navegador Julio Cardoso, do Projeto Baleia à Vista, aponta que os pescadores e caiçaras são parceiros na busca de soluções e na preservação das baleias e golfinhos, que fornecem muitas informações e ajudam o quanto podem, o que é muito importante. 

“Uma baleia presa numa rede é um problema sério para a baleia e para o pescador e o que está se buscando fazer é ter mais atenção, ficar de olho nas redes sempre que há baleias se aproximando e procurar evitar ou diminuir ao máximo os acidentes, recolhendo a rede, etc.A temporada das jubartes coincide com uma época onde temos a pesca de tainha, sororoca e mesmo o arrasto do camarão e isso vai exigir cada vez mais pesquisas, estudos e formas de buscar maneiras de evitar estes acidentes, não é algo simples nem fácil, mas é o que todos estão buscando”, afirma Cardoso.

Ele aponta que as baleias enfrentam muitos outros problemas, como lixo e poluição no mar, choques com embarcações, impacto de explosões sísmicas na área do Pré-Sal, além dos impactos das mudanças climáticas. “A chave da questão é buscar encontrar meios de conseguir uma convivência pacífica entre o ser humano e a natureza”, conclui o navegador.