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Entre dois mundos: os dilemas e desafios da vida de uma caiçara na Arábia Saudita

Há seis anos vivendo na Arábia, a sebastianense Valéria Ramos precisou aprender na prática sobre os padrões religiosos, culturais e sociais que imperam no país

Por Ricardo Hiar, de São Sebastião

Em pleno século XXI, com inúmeros avanços tecnológicos e a globalização, a mulher ganhou seu espaço e vem consolidando força em relação à igualdade de gênero. Mas se engana quem pensa que isso é uma realidade para as mulheres de todo o mundo. Há países onde a mulher não pode ser vista em público por outras pessoas, é proibida de trabalhar, dirigir, tampouco votar.

Exemplo disso é a Arábia Saudita, país muito conhecido pelas riquezas provenientes da produção do petróleo, mas onde a cultura machista impera e por questões, principalmente religiosas, a mulher tem um papel muito restrito e submissa ao homem.

Para as meninas que nascem em solo árabe, talvez esse não seja um problema sentido de forma incisiva, já que elas aprendem desde pequenas seu “papel”. Porém, o choque de realidades para quem cresce em outro país, como o Brasil, a adaptação não é fácil. É preciso mais do que paciência e disposição de aprender. Em alguns casos, é necessário se reinventar.

Nascida em São Sebastião, no Litoral Norte, Valéria de Souza Ramos, 49, foi sempre uma pessoa muito ativa. Filha de caiçaras, com um irmão e uma irmã, começou a trabalhar cedo, batalhou para estudar e concluir o ensino superior e correu atrás de seus objetivos. Mas após casar com um engenheiro belga, morar em países como Bélgica e Espanha, resolveu dar apoio o marido, que recebeu um convite para trabalhar na Arábia Saudita. “Foi uma proposta importante para ele, então apoiei para que ele aceitasse. Na época eu não tinha ideia do que viria pela frente”, completou.

Aliás, noção de como eram as coisas no mundo árabe, ela só teve quando estava lá efetivamente. Um fato curioso que ela conta é que num determinado dia, após seu marido aceitar o trabalho, o casal foi chamado para uma entrevista, junto com outros funcionários. “Eles nos reuniram para explicar como seria a vida por lá, principalmente com alertas para as mulheres. Mas foi falado tudo em francês e eu não entendia. Então no final eu estava meio que perdida, sem entender ao certo o que tinham dito, enquanto  outras mulheres saíram chorando de lá”, disse.

As origens e o trabalho

Em meio a uma vida de oportunidades e desafios, Valéria não esquece suas origens, no litoral paulista. “Se estou onde estou hoje, foi graças a tudo o que vivi em São Sebastião. Minha família era de classe média baixa. Minha mãe trabalhava na cantina de um colégio, meu pai na balsa. Desde os dez anos eu não tinha recreio na escola, pois gostava de ajudar minha mãe nas vendas”.

Com 13 anos, ela foi auxiliar de dentista em São Sebastião e pouco tempo depois passou a guardar dinheiro para conseguir estudar no nível superior. Trabalhou no banco Bradesco, também numa copiadora. Aos 17 anos, começou a vender sanduíche natural na praia e nos verões, acordava as 3h para preparar os lanches que ofereceria ao público.

A jovem queria cursar odontologia, mas como não conseguiu aprovação no vestibular na primeira opção, resolveu cursar a segunda, que era psicologia e se matriculou na Universidade Brás Cubas, em Mogi das Cruzes. Trabalhava durante o dia e estudava a noite, para conseguir se manter no curso. Chegou a enfrentar a estrada diariamente e ir de moto de São Sebastião para Mogi, a fim de economizar, até que conseguiu alugar uma casinha na cidade.

Uma vez por mês buscava biquinis no Rio de Janeiro, para vender no litoral. Foi assim até se formar, quando voltou para São Sebastião. Na época passou no concurso como psicóloga e iniciou a carreira. Mas por uma inquietação que faz parte de sua natureza, resolveu buscar uma especialização fora do país. O local escolhido foi Londres, onde permaneceu por seis meses e fez estágio num projeto da rainha, que atendia pacientes latino americanos com DST/Aids.

A primeira experiência internacional já foi difícil. Foi um tempo desafiador e, longe da família, acabou ficando um pouco deprimida e resolveu voltar por um tempo ao Brasil. Mas na volta, durante um namoro acabou engravidando e precisou novamente mudar seus planos. Não voltaria mais a Londres. Passou a morar com os pais novamente e trabalhar na Prefeitura de São Sebastião como psicóloga.

Ela precisou se afastar por um tempo e, depois ao retornar à prefeitura, cuidando do filho, recomeçando a vida profissional, conheceu em aniversário de 33 anos um belga que mudaria sua trajetória. Em determinada situação, estava com outras seis amigas num estabelecimento de Ilhabela e ele e outros seis amigos na mesa ao lado. Era notório de que não eram brasileiros. Como o garçom teve dificuldades para traduzir o cardápio para eles, Valéria se ofereceu para ajudar. “Eu olhei para um deles, que também olhou para mim e houve algo diferente na hora”, conta.

A partir daí passaram a se conhecer melhor. “Apresentei a ele a Bossa Nova, a caipirinha e outras coisas boas do Brasil naquele mesmo dia. Quando nos despedimos, ele me deu um abraço, que parecia que nos conhecíamos há muito tempo. Já tinha alguma ligação e ali selamos nossas vidas”. Oito meses depois eles casaram. O filho de Valéria, Enzo, foi registrado pelo marido e a família começou a morar na Bélgica. Foram oito anos por lá.

“Do congelador para o deserto”

De acordo com Valéria, tanto na Bélgica, quando em Madrid – outra localidade que moraram, era possível ser ela mesmo, viver bem, ter liberdade, trabalhar. Mas o clima era mais frio e isso a deprimia um pouco. Então quando houve o convite de seu marido para ir para Arábia, poderia ser uma boa alternativa. “Queria ir para um lugar mais quente, mas não imaginava que tanto. Foi como sair do congelador para o deserto”, comentou. Na Arábia Saudita, as temperaturas no verão ultrapassam 50 graus e no inverno, ficam em pelo menos 30 graus.

Quando houve o curso para os casais que iriam mudar para lá, foram dadas as instruções. Entre as mudanças, foi informado de que as mulheres teriam que mudar as vestimentas, não poderiam trabalhar e nem dirigir. Foi alertado das diferenças, principalmente em relação à religião. “As principais diferenças da Arábia estão ligadas à religião”, comentou a brasileira, que diz respeitar várias denominações, mas não frequentar nenhuma.

O marido foi na frente para o novo país, de modo a preparar o local. “Sabíamos que iríamos morar num local muito lindo, mas também que não poderia sair de lá sem usar a abaya – tecido com o qual as mulheres não muçulmanas precisam cobrir a cabeça”, afirmou. Ela também foi orientada que não seria possível sair de casa sem o motorista. A maioria dos motoristas são indianos ou de outros países, que vão para o local em busca de melhores oportunidades de renda.

A diferença de fuso horário na Arábia seis horas a mais, comparado ao horário de Brasília. Eles não oferecem vistos a turistas. Para chegar lá São 14 horas de voo até o Qatar e depois mais uma hora para a Arábia.

Mulher não pode…

Entre as diversas proibições impostas para o público feminino em território Árabe, está o fato da mulher não poder dirigir. A justificativa dos homens é de que estão protegendo elas, já que o trânsito é caótico no país.

Eles alegam que a burca não as deixa enxergar direito, por isso é melhor não poderem dirigir. Além disso, não há respeito às leis de trânsito e o número de acidentes é grande. Um amigo de trabalho do marido da brasileira morreu num desses incidentes.

Como mulher não pode dirigir, as vezes tem crianças de 12 ou 13 anos que são colocados para conduzir veículos e levar as mães na realização de tarefas do dia a dia, como ir ao supermercado. “Não se respeitam leis de trânsito na Arábia. Talvez, por não terem outras oportunidades de extravasar, acabam fazendo loucuras no trânsito”, falou a sebastianense.

Nas lojas de roupas, só o homem tem direito ao provador. As mulheres não podem experimentar vestimentas no comércio. Tem que comprar, levar para casa. Se não servir, pode até devolver, mas experimentar na loja não pode.

Como dinheiro não é um problema por lá, há muitas lojas de grife internacional. Os homens costumam presentear as mulheres com muitas joias, que é uma forma de mostrar o poder do marido. As joias se sobressaem mesmo sobre as burcas.

A mulher normalmente anda atrás dos homens, assim como as crianças também. Elas não podem jamais inverter essa ordem.

Num restaurante, há ala de solteiros e a ala das famílias. O homem solteiro nunca pode olhar uma mulher árabe. “No restaurante, eles colocam um biombo ao redor de cada mesa, pois aí as mulheres vão tirar a burca para comer e não podem aparecer em público”, destacou.

Até mesmo os treinos em academias são separadas. Tem as femininas e as masculinas. Nas ruas, apesar de hoje estarem em menor escala, existem os “guardas religiosos”, que ficam espalhados para poder reprimir quem não está cumprindo os padrões de vestuário, por exemplo. “A mão, o braço, o cabelo, têm uma conotação erótica. Então precisa estar tudo tapado. Mas eles ficam de olho e as vezes orientam a cobrir a cabeça, por exemplo. Por isso, as mulheres estrangeiras precisam ter sempre na bolsa, pelo menos um xale”, explicou.

Ainda assim, Valéria Ramos é otimista. “Hoje elas até estão ficando um pouco mais espertas, a internet tem ajudado a conhecer outras culturas e aprender que existe algo a mais”.

Uma árabe entre expatriadas

O termo expatriada é utilizado para definir aquelas pessoas que vivem fora de seus países, na Arábia. Essas pessoas, assim como a família de Valéria, devem ficar no convívio de outros na mesma condição e não se misturarem com outros. A sebastianense diz que sempre sentiu muita dó de ver a forma que elas vivem, sob toda essa repressão.

Nesse contexto, ela lembra de uma situação em que chegou a correr riscos, para possibilitar que uma árabe participasse de um encontro em sua casa, com mulheres de várias parte do mundo.

Essa mulher árabe começou, sob influência de outras, a ter amigas de outras nacionalidades e resolveu estudar sozinha pela internet. Hoje, possui até uma escolinha de inglês para as crianças árabes na casa dela. Também ensinou as filhas, escondida do marido. Ele acabou percebendo, mas permitiu que ela se desenvolva.

Por ser árabe, ela não pode entrar no condomínio de expatriados. É feita uma inspeção rigorosa e pedido o documento de estrangeiro. Quem não tem é barrado já na entrada. “Um dia consegui a façanha de levar ela para um almoço na minha casa, como boa brasileira que sou. Percebi que ela tinha muita vontade de ir lá e ajudei”, comentou.

A psicóloga lembra que afirmou na portaria que estava trazendo uma amiga expatriada que estava sem documento. “A gente não usa nada na cabeça. Só um vestido longo preto, com algo pra cobrir a cabeça, conhecido como a abaya. Mas as muçulmanas têm um véu e a burca. Eu disse que ela teria que tirar e foi o que ela fez, mas ficou tremendo no carro. Dei a ela meu óculos de sol e conseguimos passar pelo bloqueio”, contou.

Quando chegou na casa, 22 mulheres fizeram uma recepção para ela. Ela sentou e disse que a sensação do homem olhando para ela e vendo o rosto, é como se estivesse pelada. Foi uma adrenalina que precisou passar.

Mas essas pequenas ações estão ajudando no desenvolvimento da árabe. Antes o marido dela viajava com outras mulheres para outros países, enquanto ela nunca tinha saído da Arábia Saudita. Isso mudou um pouco no ano passado, quando ela conseguiu fazer uma viagem para uma ilha árabe com toda a família. “Ela está devagar, conseguindo conquistar o espaço dela”, completou.

StandUp à moda Árabe

Numa certa ocasião, cansada dos palpites que recebia de outras expatriadas, em relação às roupas que estava usando nos condomínios – segundo ela nada fora dos limites estabelecidos –  Valéria decidiu praticar Stand Up Paddle de burca. Ela vestiu a roupa, pegou a prancha e começou a remar.

O que ela não imaginava era que isso daria ainda mais o que falar. Isso porque quando avistaram uma pessoa toda coberta, chegando pela praia no condomínio, acharam que poderia se tratar de um ataque terrorista. A segurança foi acionada e gerou um corre corre, até que fosse identificado que se tratava de uma moradora.

Tempo de orar

Um fato diferenciado que ocorre na Arábia, é o chamado “prayer time”. São cinco ocasiões por dia em que tudo para no país de modo que a população faça suas preces, que duram cerca de 25 a 30 minutos. “Se você está num restaurante, vai ter que esperar. Eles param tudo o que estão fazendo, fecham os estabelecimentos e só voltam a funcionar depois. As lojas ficam abertas até meia noite. No verão, às 22h ainda tem sol. Mas o “prayer time” muda de acordo com o calendário solar.

“Como você compra uma lingerie com um homem te atendendo?”, questiona. Mas as mulheres também não têm espaço no mercado de trabalho.

A escola do filho de Valéria é mista, porque recebe alunos de pessoas de outros países. Mas os árabes, vão para escolas de meninos e meninas, separados. A mãe não pode falar com a professora se tiver algum problema. No hospital, os homens não podem falar com as mulheres, assim como as mulheres não podem falar com os funcionários homens.

O dia sagrado na Arábia é sexta, então sexta e sábado o país praticamente não funciona. Domingo é o primeiro dia da semana: as pessoas trabalham e estudam normalmente.

A internet favorece bastante a comunicação entre as pessoas e ampliou a luta das mulheres, mas ainda assim é limitada. Muitos sites não abrem e algumas redes sociais são bloqueadas.

Álcool zero

Nos países do oriente, não se encontra bebida alcoólica em supermercados. Aliás, não só no supermercado. Eles são super rigorosos com essa comercialização. Só consegue em outros países, em hotéis cinco estrelas. Portar ou produzir a cerveja e outras bebidas é crime.

“Quando a gente acha um vinho fora do Brasil, fica animado. Eles são caríssimos. Um vinho que costumo pagar por R$ 40, com eles foi pra U$ 200. Outra restrição na Arábia é a carne de porco. Quando chego no Brasil, eu já peço logo um Cheese-bacon para aproveitar”, afirmou em tom de brincadeira.

Em relação à bebidas alcóolicas, a psicóloga conta que já conheceu pessoas presas pela fabricação e comercialização das mesmas. Um australiano, conhecido da família, foi preso porque estava produzindo bebida. Ficou oito meses na cadeia, num espaço que é bem ruim no país, com um sistema punitivo. O erro da vítima foi, além da produção da bebida, servir para outros condôminos.

“Se te pegarem com uma receita ensinando como fazer bebida alcóolica, você já pode ser preso. Para entrar no país, pode demorar várias horas, pois é preciso passar por seis alfândegas”, completou.

Consciência ambiental ou falta dela

Por causa do petróleo, os árabes consomem muitos itens que são ruins para o meio ambiente e não têm noção de ecologia. A sacolinha do supermercado, por exemplo, parece de tecido de tão grossa que é. “Eles colocam uma caixa de fósforo nessa sacola, e é muito comum lançarem coisas pela janela, pois eles não têm cuidado algum com a preservação do meio”, contou a brasileira.

Brasil, o refúgio e o futuro

O Brasil, que um dia já foi morada de Valéria, hoje funciona como um refúgio duas vezes por ano. É o momento de conversar, de rever amigos, de andar com a roupa que quiser, de ser ela mesmo.

Segundo ela, hoje em dia é possível viajar para terras brasileiras duas vezes por ano, durante as férias. O casal construiu uma casa em Barequeçaba, que será a morada no futuro. “A ideia é ficar uns dois ou três anos na Arábia e depois mudar para o Brasil. Hoje meu marido fala que é mais brasileiro do que Belga”, comentou.

A ideia é vir e com a bagagem que tem, atuar no Brasil com projetos e outras ações, sem muito compromisso de tempo. “Uma das metas do meu marido é fazer uma viagem pela costa brasileira com o hidroavião que ele comprou. Queremos voltar e viver tranquilamente, para valer a pena todo o sacrifício no oriente”.

Apesar dos pesares, Valéria Souza Ramos diz que o “seu povo” tem motivos de sobra para comemorar. “Acho que nós brasileiros estamos passando por um momento tão difícil, mas temos que nos orgulhar da nossa personalidade e do nosso caráter. Nós conseguimos ser versáteis, se adaptar a outras culturas, se colocar no lugar do outro”, concluiu.

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